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Jornalismo de Resistência

Posted by analisesdejornalismo em agosto 19, 2009

A necessária representação da cidadaniana mídia em nome da democracia

Por Bruno Barros Barreira

Sem dúvidas, a mídia constitui o palco contemporâneo do debate público. Ela é um terreno de fogodisputas ferrenhas, onde as representações ideológicas de diversos grupos buscam espaço para fincar seus valores e construir a realidade de acordo com seus interesses. Na sociedade democrática, sabendo que essas disputas acontecem de forma ferrenha, tornou-se histórico e mais do que conhecido o dever da mídia em buscar sempre o equilíbrio para atender ao interesse público.

Contudo, as transformações da esfera pública – o aumento dos interesses privados – mostram que o espaço midiático, antes destinado a discutir questões públicas está sendo substituído por representações de espetáculo. Isso porque interesses dos próprios veículos de comunicação se sobrepõem à agenda pública ou ditam o que deve ser chamado de agenda pública.

Estudos específicos de jornalismo – principalmente no que diz respeito ao forte desenvolvimento das chamadas teorias do jornalismo – ajudam aos profissionais a resistir e lutar por uma produção mais crítica da notícia. Impossível? Claro que não.

Resgate de princípios

Em primeiro lugar é interessante resgatar alguns princípios do bom jornalismo. Relaciono aqui os preceitos de dois teóricos, Bill Kovack e Tom Resentiel. São princípios elementares que os jornalistas não podem esquecer. Além disso, são pontos que o público deve exigir:

1) A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade;

2) Sua primeira lealdade é com os cidadãos;

3) sua essência é a disciplina da checagem;

4) Seus praticantes devem manter independência de quem estão cobrindo;

5) Deve funcionar como um monitor independente do poder;

6) Deve apresentar um fórum para a crítica pública e o compromisso

7) Deve lutar para transformar o fato significante em interessante e relevante

8) Deve manter as notícias compreensíveis e equilibradas

9) Seus praticantes devem ter liberdade para exercer a consciência pessoal.

Esses princípios favorecem a cidadania. E mesmo que atualmente se alegue que o jornalismo atravessa uma crise de desconfiança, é inegável que o profissional goza de certa liberdade para dar seus enfoques interpretativos à reportagem. Até porque os grandes jornais vivem de credibilidade e por mais maniqueístas que sejam, sabem que é a credibilidade que os sustenta. É a credibilidade que atrai leitores e, conseqüentemente, anunciantes.

Sendo assim, o jornalista não pode deixar de praticar esta liberdade editorial. Sua resistência deve ser diária. Sua crença na democracia e no bem do cidadão deve estar acima de um bom emprego. Até porque, se a sua credibilidade individual for manchada será seu próprio suicídio profissional e, certamente, o mais prejudicado da história. Sua estabilidade numa empresa está intimamente ligada a sua credibilidade.

Resistência na prática

Se analisarmos o modo de produção jornalística, conforme já diagnosticou os estudos do newsmaking, veremos que é plenamente possível praticar o jornalismo de resistência. Quando o repórter sai às ruas é porque, no mínimo, goza da confiança de seu editor para apurar os fatos corretamente. Ou seja, o enfoque interpretativo que o nosso repórter trará para a redação será, basicamente, o oficial. Até porque, na rotina diária de uma redação, o editor não terá como fazer uma nova confirmação dos dados.

Não estou dizendo que o jornalista deve fazer política partidarista, seguindo a ideologia de esquerda ou direita. Não se trata disso, mas, como diz Felipe Pena, no livro “Teoria do Jornalismo” trata-se de olhar o acontecimento ao inverso.

Usando o mesmo exemplo que Pena usou em seu livro, digamos que no último mês uma onda de assaltos assustou os moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro (área nobre da cidade). E, com isso, a estatística de violência na região, conseqüentemente, disparou. Assim, os jornais, claramente, pediram aos seus repórteres para questionar as autoridades sobre quais as medidas serão tomadas, para reverter o quadro.

A resposta quase sempre será a mesma. “Vamos aumentar o efetivo da policia militar na região, colocar mais guardas municipais nas ruas dos bairros, instalar cabines de segurança etc.”. No jornalismo de resistência, o repórter não deixará de pensar no restante da população, que não mora nas áreas nobres – aliás, parcela que constitui a maioria dos cariocas.

E, assim, vários questionamentos poderão ser feitos. “1) De quais bairros do subúrbio esse efetivo extra da polícia militar e da polícia municipal será tirado? 2) De acordo com o histórico de estatísticas de violência no Rio, os bairros do subúrbio são sempre os mais violentos. Esse remanejamento não irá prejudicar ainda mais a vida dos cidadãos dessa região?”. Não há um editor que negará a seus repórteres a publicação de questionamentos como esses. Eles mostram equilíbrio, possuem interesse público e, certamente, despertam os potenciais leitores a consumir o produto noticioso”.

Como pode ser visto, portanto, o jornalismo de resistência é viável e se encaixa sem grandes esforços no modelo de produção diária do jornalismo atual.

Sugestões bibliográficas

Pena, Felipe. Teoria do Jornalismo. Editora Contexto

Bucci, Eugênio. Sobre ética e imprensa. Companhia das Letras

Kovack, Bill e Resentiel, Tom. Elementos do Jornalismo.

Traquina, Nelson. Teorias do Jornalismo: porque as notícias são como são. EFSC.

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A mídia e as representações sociais

Posted by analisesdejornalismo em agosto 14, 2009

Análise de alguns produtos midiáticos: CQC, Caminho das Índias e Folha de São Paulo

por: Bruno Barros Barreira

Podemos dizer que a mídia é a principal janela interpretativa da vida contemporânea. Por ela conhecemos o mundo através dos desenhos, filmes, seriados, jornalismo, talk shows, entre outros produtos são produzidos para atrair o maior número de pessoas (consumidores) possível e gerar lucros. É por ela que construímos uma ideia de como são os povos do outro lado do mundo, de como se comportam cidadãos de diversas culturas, classes e etnias. Dessa forma, podemos também absorver seus valores, sua forma de ver o mundo, seu ethos liberalista ou conservador. Ou seja, tomar a interpretação da mídia como verdade e, assim, construir a nossa visão política.

Antes de continuar, faço uma ressalva. Esse texto não se trata de uma maneira de mostrar que existe uma manipulação poderosa e irresistível por trás das grandes produções midiáticas de tal forma que a elite – com total domínio dos meios – controla o pensamento das massas de forma irrepreensível. Não, como se sabe, a teoria da manipulação pura e simples é uma argumentação ultrapassada.

Trata-se, portanto, de fazer uma leitura crítica e mostrar que todos os produtos da mídia carregam pontos de vista culturais e sociais específicos, que nos ajudam na construção do entendimento da realidade. Ou seja, é através da difusão das “representações sociais e culturais” veiculadas na mídia, que certos valores são perpetuados, rejeitados ou transformados.

Para entender melhor o que são essas representações, apresento uma pequena análise de três produtos midiáticos atuais: o programa CGC (transmitido pela Band), a novela Caminho das Índias (Rede Globo) e o jornalismo da Folha de São Paulo.

Representações no CQC

Em menos de um ano, o CQC (Custe o que Custar) ganhou notoriedade e forte audiência no país. As representações contidas no produto são variadas. Há representações ideológicas positivas e outras negativas. No lado positivo, pode-se argumentar que o programa apresenta jovens honestos, extremamente insatisfeitos com a corrupção na política e na sociedade, chegando a sofrer ameaças de censuras. Assim, pode-se dizer que sua representação serve como uma espécie de “incentivo” aos jovens para tomar consciência política cidadã; exigir conduta ética de seus representantes e combater a corrupção.

Já do lado negativo, pode-se dizer que o programa possui o seguinte “eu ideológico”: é totalmente formado por homens, brancos e representantes da classe média e alta paulista. Diversas piadas machistas são feitas durante o programa e, não raro, sexistas, colocando a mulher como simples objeto sexual. Não é à toa que o programa já foi processado diversas vezes. Um exemplo que ficou notório foi o caso das integrantes do grupo musical Sexy Dolls, que foram chamadas de prostitutas pelo apresentador Marcelo Tass. O lado machista do programa também é reforçado pelas piadas e brincadeiras satirizando os homossexuais, com ironias sobre comportamentos que seriam “típicos” de um gay, entre os próprios integrantes, às vezes, como se fossem vergonhosos. Assim, sua representação ideológica aponta para o homem branco heterossexual, honesto, machista, sem espaço claro para outras etnias.

Representações em Caminho das Índias

Produto cultural bem mais complexo, a novela envolve várias representações sociais e culturais bem mais diversas. Na verdade, seria necessário um livro para analisá-la corretamente à luz dos Estudos Culturais. Pode-se argumentar que o programa mostra como é errado e ignorante qualquer tipo de preconceito, assim como a exclusão social ao dramatizar a vida dos integrantes da casta indiana Dalits, considerados pó e não filhos do deus supremo. Ao mesmo tempo, pode-se dizer que a dramatização das castas indianas aponta, de maneira velada, contra o radicalismo religioso de alguns segmentos no Brasil, como no caso dos neopentecostais e até mesmo da Igreja Católica – contrária ao uso de métodos anticoncepcionais.

Ao mesmo tempo, é possível notar alguns traços conservadores. A novela reforça os laços familiares, principalmente quando compara os valores das famílias brasileiras com as da Índia. O que leva a uma reflexão da importância do respeito aos pais, à esposa e aos filhos. Assim, de maneira sutil, acaba fazendo uma critica aos valores liberalistas culturais, ao mostrar que as conservadoras famílias indianas estariam sendo desmembradas, justamente por uma onda liberal ocidental, tornando-as infelizes.

Essa visão, no geral, acaba retomando a posição conservadora patriarcal da família, onde o homem deve ser peça fundamental para guiá-la, no intuito de torná-la bem sucedida. Caso contrário, poderá ser um desastre. Fato reforçado pela imagem da família do personagem Zeca, onde o pai, Sérgio, não “controla” os momentos impulsivos da esposa, nem coloca limites nos filhos. A falta de atitude paterna faz com que Zeca seja rebelde e arruaceiro.

A posição conservadora também é vista no personagem Raul (na ocasião, marido da Silvia), que acabou pagando um alto preço por causa de seu adultério com a vilã Ivone. O que mostrou que pode ser extremamente arriscado e doloroso ao homem cometer adultério, não vale a pena. Já a vilã Ivone, uma das poucas mulheres independentes da trama, é mostrada como ambiciosa, criminosa, cínica e totalmente desprovida de moralidade, associando às mulheres solteiras e independentes a uma imagem misteriosa e pouco confiável.

Representações na Folha de São Paulo

O jornalismo atual possui diversas teorias bem articuladas. Elas possibilitam análises esclarecedoras sobre o processo de produção de notícias. Uma delas, inserida no grupo que compõem as teorias construcionistas do jornalismo (Newsmaking), é a Teoria Interacionista ou Teoria dos Definidores Primários. Tendo essa perspectiva em mente, vamos à pequena análise.

Todos sabemos que o jornal Folha de S. Paulo é voltado para os valores liberalistas. Portanto, sua representação social contribui para construção de uma realidade que acredita na intervenção mínima do Estado na economia, na privatização, no liberalismo econômico e cultural. É extremamente cosmopolita e, historicamente, simpatizante dos partidos de direita.

As vozes sociais ouvidas na grande maioria das reportagens parte da subordinação às opiniões das fontes que tem posições institucionalizadas, também chamadas de definidores primários. Essas fontes definem o rumo de qualquer notícia. Como diz Nelson Traquina no livro “Teorias do Jornalismo”: “essa interpretação comanda a ação em todo o tratamento subseqüente e impõe os termos de referência que nortearão todas as futuras coberturas”.

Assim, quando a Folha de São Paulo ouve algum “mega economista”, dizendo que o governo deve enxugar sua folha de pagamento, se posicionando contrariamente à grande criação de concursos públicos, parte de uma visão que defende os interesses da classe de empresarial hegemônica. Ela gera uma série de outras reportagens que partem da primeira visão liberalista. A representação interpretativa inicial, portanto, acaba saindo como uma verdade norteadora das reportagens seguintes, inclusive quando se ouve opiniões contrárias.

Prevalece sobressalente, portanto, a crença num mundo liberalista econômico e contrário ao crescimento do Estado. Recentemente, por exemplo, a Folha de S. Paulo defendeu, em editorial, o fechamento da TV Brasil, afirmando que a mesma é um claro sinal de desperdício do dinheiro público. De maneira bem clara, quis afirmar que a melhor saída será sempre a iniciativa privada.

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