Análises e Estudos do Jornalismo

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Archive for the ‘Cultura da Mídia’ Category

Artigos críticos sobre produtos da mídia e suas representações sociais

O partidarismo da Grande Imprensa no Brasil

Posted by analisesdejornalismo em janeiro 28, 2014

 

O partidarismo da Grande Imprensa no Brasil

28 de janeiro de 2014   Cultura da Mídia

bandeiraPor Bruno Barros Barreira

O partidarismo presente nos principais meios jornalísticos do Brasil é evidente. O fato tem gerado incontáveis críticas fundamentadas que pululam por todas as partes, e que ganham mais destaque atualmente com o advento da internet. Essa é, aliás, a grande diferença dos nossos dias.

Só para iniciarmos a argumentação, é importante lembrar a sintomática declaração da ex-presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Maria Judith Brito, que atribuiu às empresas jornalísticas o papel de oposição política, já que – na visão dela – não há nenhum partido com força para fazer este papel no momento. Aqui já há um erro grotesco sobre o papel do jornalismo. É certo que a Imprensa deve fiscalizar o poder, mas para isso não há necessidade de que ela se torne partidária. Há uma profunda diferença de conceitos aqui…Leia Mais

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OS ESTUDOS CULTURAIS (Cultural Studies)

Posted by analisesdejornalismo em novembro 6, 2013

Os Estudos Culturais  são caracterizados especificamente por sua natureza interdisciplinar e por sua transitoriedade, aliás, uma qualidade já implícita no próprio nome desta disciplina – estudos -, que remete a algo em constante transformação. Como ela se destina a questionar interações que se baseiam no poder e na autoridade, é fundamental que ela mesma não se constitua de verdades absolutas e dogmáticas.
Os Estudos Culturais articulam em seu interior diversas disciplinas, como a economia política, a comunicação, a sociologia, a teoria social, a teoria literária, a teoria dos meios de comunicação, o cinema, a antropologia cultural, a filosofia e a investigação das diferentes culturas que emergem dos mais diversos corpos sociais.

Raymond Williams
Os Estudos Culturais nascem a partir dos estudos realizados por Raymond Williams, crítico de literatura britânico, apontado como um dos criadores desta disciplina, e pelo historiador E. P. Thompson, os quais, ao lado de Richard Hoggart, primeiro diretor do Centro de Birmingham, tecem as primeiras reflexões que irão compor o arcabouço deste campo de pesquisas.
Em Cultura e Sociedade, Raymond revela que a esfera cultural – aqui vista como um ponto de vista antropológico – é decisiva tanto para a compreensão literária quanto para os estudos da sociedade. Tanto este pesquisador quanto Thompson partiram de vivências concretas para a construção desta teoria, pois as raízes dos Estudos Culturais têm origem nas aulas que ambos ministravam para trabalhadores no período da noite.
A partir desta experiência, os dois começaram a refletir sobre a prática pedagógica, visando encontrar um meio de vencer os limites de uma educação dirigida, através da qual é comum que os segmentos sociais dominantes imponham seus valores e princípios às classes desprovidas dos meios de produção. Thompson, particularmente, lança a idéia de uma interação mais flexível entre mestres e alunos, pretendendo, assim, libertar-se do âmbito das relações estabelecidas nas salas de aula.
Em resumo:

A contribuição dos Estudos Culturais
·         Escola de Birminghan – Inglaterra – Estudos Culturais – década de 60
·         Cultura no âmbito de uma teoria da produção e reprodução social
·         Sociedade é concebida como um conjunto hierárquico e antagonista de relações sociais caracterizadas pela opressão das classes, sexos, raças, etnias e estratos sociais.
·         Modelo gramsciniano de hegemonia e contra-hegemonia
·         Combinação de força e hegemonia
·         A emergência dos Estudos Culturais e sua análise dos meios de comunicação de massa vieram, no mínimo, romper esta polarização e procurar oferecer uma visão mais ampla e mediada para o entendimento do papel dos meios de comunicação
·         Raymond Williams, E.P. Thompson, Stuart Hall
·         Quatro traços fundamentais dos Estudos Culturais, em divergência tanto com o funcionalismo quanto com a teoria crítica:

1º – Onde o funcionalismo via um grande organismo vivo, tendendo ao equilíbrio, no qual os conflitos eram tratados como anomalia ou, onde a teoria crítica via uma sociedade dominada, submetida completamente ao poder do capitalismo e da mídia, os Estudos Culturais vão ver o conflito, a luta, a disputa da hegemonia por classes, setores e blocos diferenciados.
A sociedade não é harmônica e sim conflitiva – que existe sim dominação, mas como processo e disputa, não como algo dado, plasmado, imutável.
2º – a análise de que o campo da cultura e da comunicação se constitui numa arena decisiva para a luta social e política na sociedade contemporânea.
Os Estudos Culturais reconhecem que existem intencionalidades de dominação por parte da Indústria Cultural. No entanto, partem de uma visão de que existem muitos elementos intervenientes que fazem com que estas intencionalidades se realizem ou não, em partes ou integralmente.
Reconhecer que os emissores não são os todo-poderosos do processo de comunicação não pressupõe desconsiderar que eles detêm um poder, e grande, no conflito e na disputa existente na sociedade. Relativizar seu poder de mando não quer dizer subestimá-lo
3º – as mediações sociais são decisivas para determinar como se realiza o processo comunicacional em cada sociedade.
Parte de uma visão de que é necessário antes de tudo reconhecer as especificidades da constituição de dada sociedade, seus dados de configuração histórica, para, a partir deles, buscar entender como os meios atuam.
Esse traço distintivo motivou especial reflexão sobre como se constituem as indústrias culturais em países vindos de mestiçagem, de capitalismo tardio e dependente, produzidos a partir de encontros de cultura, com modernizações conservadoras, além de permitirem também a análise do deslocamento do popular para o massivo; da relação entre Estado e indústria cultural; da característica monopolista e conservadora dos empreendimentos em comunicação etc.
4º – ver na chamada ‘recepção’ um papel ativo e importante, que pode alterar o resultante de todo o processo. A partir das mediações sociais, as pessoas se ‘relacionam’ com a comunicação de massa, estabelecendo negociações simbólicas a partir da oferta proposta pelos veículos, mas também de sua visão de mundo, de seus hábitos e crenças, ou seja, de sua cultura.
Sem idealizações desse público e de suas capacidades, fica clara a visão de que ele se constitui por ação ou omissão em sujeito do processo, ator que determina o desfecho da trama em questão
É impensável analisar a sociedade contemporânea, sem entender que existem dimensões diferenciadas da realidade: o real cotidiano, feito dos valores e das rotinas vivenciadas diretamente pelas pessoas; e o real midiático, dimensão relacionada a tudo que se produz de simbólico através dos meios massivos de comunicação.

FONTE: http://unianhanguera.blogspot.pt/

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Cinco técnicas para melhorar o jornalismo explicativo

Posted by analisesdejornalismo em novembro 3, 2013

Como a tecnologia pode ajudar o jornalista a dar sentido a temas complexos e explicá-los ao público de uma maneira clara e compreensível?

por J. Nathan Matias, PBS MediaShift’s IdeaLab

No ano passado, os estudantes de jornalismo de Jay Rosen passaram um semestre inteiro pesquisando e elaborando explicações em parceria com o ProPublica, uma redação sem fins lucrativos que se concentra em jornalismo investigativo. A classe fez um trabalho incrível para destacar exemplos notáveis e desenvolver seus próprios “explicadores”, conhecimento de fundo essencial para ajudar o público a acompanhar os acontecimentos e tendências no jornalismo. Um dos meus exemplos favoritos é um projeto de 2011 em que os alunos recriaram o mesmo artigo de fundo do ProPublica com vídeo, podcast e seção de perguntas frequentes.

A classe focou principalmente em duas coisas: apresentação e conversação. Eles conversaram com psicólogos cognitivos como George Lakoff para aprender como o público assimila o que lê. Destacaram exemplos de apresentação, como vídeos, cronogramas, infográficos, mini-sites, agregadores, podcasts, guias interativos, fluxogramas, e até mesmo um livro de imagens do Google! A turma também observou que explicar muitas vezes é uma conversa. No seu guia do jornalista para o desenvolvimento de perguntas frequentes, a classe sugere técnicas para descobrir o que as pessoas precisam saber. Eu adorei o conselho de ouvir o leitor.

Onde podemos inovar?

Neste período, estou fazendo a aula de Notícias Participativas de Ethan Zuckerman a partir do ponto de vista de um designer de tecnologia que quer construir ferramentas para apoiar o jornalismo de qualidade… Aqui estão as minhas principais recomendações em assunto de tecnologia para explicações melhores:

1. Produção colaborativa. Jay escreveu no seu ensaio o “Explicador Nacional” que se pode iniciar com um jornalista que não sabe do assunto. Quando aprendemos a explicar alguma coisa, nossa ignorância inicial nos ajuda a perceber de onde nosso público parte. Esta abordagem assume que um jornalista profissional está fazendo o trabalho; onde mais poderíamos encontrar pessoas desinformadas capazes de fazer explicações?

Acho que devemos nos inspirar na Wikipédia para desenvolver estratégias para a produção colaborativa de jornalismo explicativo, especialmente em questões que os jornalistas não podem cobrir ou não cobrem. As comunidades online como a Metafilter provaram a capacidade para cooperar em investigações de vez em quando. Como podemos estender isso para as explicações? Poderíamos também nos inspirar no Instructables e CommonCraft, comunidades online de pessoas que compartilham instruções em vídeo e explicações…

2. Achar vozes. Muitas das explicações na turma de Jay envolvem uma narrativa. A matéria “The Giant Pool of Money” foi bem sucedida, porque o programa “This American Life” encontrou o elenco certo de personalidades para ilustrar uma questão complexa. Mas encontrar as pessoas certas é realmente difícil, especialmente se você não representa uma organização de mídia estabelecida. Bancos de fontes como o Public Insight Network podem ajudar, mas é um sistema fechado e indisponível fora das redações. Redes sociais através de grupos como o Global Voices nos leva na metade do caminho, a pessoas que talvez conheçam quem estamos procurando…

3. Organização da pesquisa. Explicações são, por definição, difícil de organizar e pesquisar. São questões complicadas que não parecem fazer muito sentido. Muitas vezes, o arco da história não é aparente até a meio do projeto. Pode ser fácil se perder na selva de informação. Enquanto a pilha de pesquisa cresce, pode ser difícil seguir a estrutura de um sistema complexo ou reunir a informação que você precisa para uma entrevista a seguir.

As ferramentas de escrita mais usadas ​​são ruins para ajudar as pessoas a organizar e compreender suas informações. Eu escrevi em outro site sobre o meu uso de softwares como o Tinderbox Eastgate para organizar uma pesquisa em torno de uma questão complexa. Acho que precisamos mais desse tipo de software. (Este artigo” de James Fallows é um ótimo lugar para começar).

4. Formas retóricas. A narrativa em computador está em seu estágio inicial; não chegamos a um acordo sobre muitas das formas literárias. Além da seção de perguntas frequentes, cronograma e palestra ilustrada, a maioria dos explicadores exige uma forma retórica personalizada. Isso é ruim para qualquer pessoa que queira designar um prazo final para um projeto.

É por isso que eu amo os prêmios “Explainer Awards” que Jay e seus alunos realizaram… Mas temos de levar isso mais adiante. Um programa de premiação eficaz reunirá finalistas em cada categoria para discutir desafios comuns e construir tecnologias para resolver esses problemas.

5. Conversação. Por que não reimaginar o ato de explicar como um movimento social, em vez de produção de conteúdo? Algumas das melhores explicações são resultado de uma conversa de duas vias e não de uma parte do conteúdo. Nós poderíamos começar um serviço chamado “Meet the News”, baseado geograficamente, que convida quem quiser a tomar café com alguém afetado por uma notícia. Os participantes poderão pagar o café e contribuir para a comunidade com alguns parágrafos sobre a conversa, algo como as recomendações de “couch-surfing” para o jornalismo.

Este artigo foi publicado originalmente no Idea Lab da PBS MediaShift e foi traduzido e publicado pela IJNet com autorização. O IdeaLab da PBS MediaShift é um blog em grupo feito por inovadores que estão reinventando as notícias comunitárias para a era digital. Cada autor recebeu um fundo do Desafio Jornalístico Knight para ajudar a bancar uma ideia sobre um tema relacionado à transformação da notícia comunitária.

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Relação assessor X assessorado: entre razão e emoção

Posted by analisesdejornalismo em novembro 3, 2013

Por Simone Bigolin

A relação entre chefes e empregados é fator determinante de sucesso, ou fracasso, em todos os campos de trabalho, inclusive na assessoria de imprensa. Tratando-se de um trabalho de AI, Milhomem (2003) sustenta que a relação é firmada através de um tripé, o qual envolve o cliente (assessorado), o assessor de imprensa (contratado pelo assessorado) e a informação (objeto de divulgação).

Quanto à relação assessor e assessorado, o autor destaca que há dois aspectos que devem ser considerados. “Um diz respeito à natureza da instituição (…). Outro, ao perfil psicológico do dirigente dessa instituição.” (2003, p. 315). Ele exemplifica dizendo que privilegiar somente as ações da organização é um risco para o assessor que possui cliente com personalidade egocêntrica e ego elevado. A regra vale para o oposto, ou seja, quando o assessor beneficia apenas o seu superior, diminuindo a importância da entidade.

É difícil medir quanto se deve evidenciar a organização ou o seu chefe. Explica Milhomem que, “a rigor, a instituição deveria estar sempre em primeiro lugar. O líder só deveria aparecer em conseqüência do êxito obtido pela instituição, o qual depende de todo o corpo de funcionários.” (Idem, p. 317). Porém, em alguns casos, o sucesso da organização é resultado estrito da visão e da competência de seu superior, merecendo prestígio e credibilidade. Cabe ao assessor analisar o que desperta mais interesse jornalístico, dentro dos princípios de noticiabilidade.

Uma das situações mais delicadas é quando o cliente se julga notícia e o assessor precisa explicar-lhe que está apenas no mérito do jornalista decidir quais acontecimentos têm projeção suficiente para tornar-se notícia. Para que este diálogo ocorra da melhor maneira possível é necessário que o assessor tenha liberdade e credibilidade com o seu superior.

Lopes (2000) defende que, para atuar com eficiência na mediação entre a instituição (e seu dirigente) e os veículos de comunicação, o assessor de imprensa precisa ser visto como parceiro, em processo de confiança absoluta. Isto implica ser tratado com respeito, pois o assessor, mais do que o chefe de uma entidade, tem capacidade de discernir sobre o que mais interessa à mídia.

Da mesma maneira que os patrões e as organizações possuem características distintas, também os assessores têm perfis profissionais e pessoais diferentes. O mais interessante, para o assessorado, é contratar um profissional de AI que possua as características mais adequadas com as suas e com as de sua empresa. Para explanar a importância da boa escolha do assessor, Milhomem diz que este “possui também o poder de conduzir os rumos de uma instituição ou de um cliente em particular. O perfil do assessor influencia muito na adoção de políticas voltadas para o público.” (2003, p. 319). Um assessor que possui a credibilidade de seu cliente e que acredita no poder de visibilidade de sua instituição, terá enormes chances de transformar essa organização em uma importante referência no seu campo de atuação.

Uma pessoa contrata um assessor de imprensa para, entre outras funções, ajudá-lo a descobrir o que, em sua instituição, pode atrair os jornalistas. Milhomem observa que, apesar desta afirmação parecer ser óbvia, muitos assessorados não admitem desconhecer o que interessa aos jornalistas. Nestes casos, é dever do assessor “orientar, aconselhar e até mesmo conduzir o cliente.” (Idem, p. 314). Apenas aceitar fazer tudo o que o chefe o mandar “diminui o papel do assessor, que passa a ser mero cumpridor de ordens, executor acrítico de tarefas nem sempre jornalísticas (…).” (Idem).

A relação assessor e assessorado deve guiar-se pelo diálogo, pela confiança, pelo respeito e pelo comprometimento mútuo. Milhomem acredita que, para que isto aconteça, o assessor de imprensa deve considerar que

A noção clara do fazer jornalístico (o que é notícia e como, quando, onde, por que e a quem divulgá-la), os contatos estratégicos nos meios de comunicação (uma boa caderneta de telefones), sensibilidade no trato com o cliente (saber exatamente quando ser passivo, propositivo ou impositivo) e uma visão prospectiva (que lhe permita antecipar problemas e soluções) garantem ao assessor de imprensa a credibilidade e o espaço necessário dentro de qualquer organização (…). (Idem).

Kopplin e Ferrareto complementam que o assessorado deve tratar o assessor de imprensa como um profissional especializado na área de comunicação e, portanto, o mais apto a administrar o contato com os jornalistas. Os autores manifestam que a interação satisfatória entre assessor e assessorado deve estabelecer-se “num nível extremamente profissional, com respeito à capacidade e áreas de domínio de cada um. Se houver atritos ou falta de entendimento entre ambos, o resultado será um trabalho de comunicação incompleto e ineficiente.” (2001, p. 50).
…………………

REFERÊNCIAS

MILHOMEM, Luciano. Relacionamento assessor/assessorado: entre tapas e beijos. In: DUARTE, Jorge. Assessoria de imprensa e relacionamento com a mídia: teoria e técnica. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2003. 411 p.

LOPES, Marilene. Quem tem medo de ser notícia? São Paulo: Makron Books, 2000. 91 p.

FERRARETTO, Luiz Artur; KOPPLIN, Elisa. Assessoria de imprensa: teoria e prática. 4.ed. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2001. 149 p.

Fonte: Estudos de Assessoria de Imprensa

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Comunicação Empresarial: As redes sociais e a imagem das organizações

Posted by analisesdejornalismo em outubro 29, 2013

*Wilson da Costa Bueno

A imagem e a reputação das organizações constituem-se em ativos intangíveis de grande valor e precisam ser constantemente monitoradas. Isso significa que elas não podem ser deixadas “ao deus dará” porque as redes costumam ser muito sensíveis notadamente em momentos de crise. Imagem e reputação devem seguir o exemplo dos botecos bem sucedidos: estar o tempo todo sob o olhar do dono.

Mas como fazer isso, se as redes sociais (que incluem o Orkut, o Facebook, o Twitter, a chamada blogosfera toda – um blog a cada segundo – e muito mais), os grupos de discussão costumam ser muito dinâmicas, arredias a qualquer tentativa de análise?

Certamente o esforço não é pequeno e não deve ser tentado por amadores, mas a velocidade e a aceleração das informações nas redes podem, a exemplo das corridas de cavalo, dos lances espetaculares de uma partida de futebol, ser congeladas num determinado momento. Estes flagrantes podem evidenciar processos, realidades, tendências e são fundamentais para compor a estratégia de defesa e fortalecimento da imagem e da reputação das organizações.

As comunidades no Orkut, os perfis no Twitter, os endereços dos blogs são públicos e podem ser resgatados a partir de “sistemas de buscas” gerais ou específicos, assim como é possível recuperar expressões, palavras (por exemplo, nomes de organizações, de marcas, de pessoas) valendo-se, quase sempre, de buscadores associados a estes ambientes interacionais.

Os blogs podem ser acompanhados pelo Technorati, o Twitter pelo Search Twitter e o próprio Orkut e o Facebook têm internamente sistemas que permitem identificar temas, pessoas etc. O mesmo vale para grupos de discussão no Google, Yahoo, Grupos.com.br etc. Há sistemas alternativos que também fazem esta varredura e até empresas especializadas nesse mister.

Na prática, esta é a primeira etapa de um trabalho de monitoramento das redes sociais, assim como o clipping (impresso, eletrônico ou dos jornais on line) é o início de um processo de auditoria de imagem na mídia.

Mas é aí que começa a encrenca (alguém pensou que seria fácil?). O problema não está apenas em resgatar as mensagens (posts, tweetes, comentários, e-mails etc) mas em definir uma forma ( metodologia é a palavra mais indicada!) de avaliar o que se pretende. Monitorar não signifiva apenas coletar dados, informações mas sabê-los interpretá-los adequadamente. Quantas organizações já têm hoje esta competência?

Há várias perguntas que podem ser feitas (e respondidas) e e que podem contribuir para a definição de um roteiro para facilitar a construção de um projeto de auditoria de imagem para as redes sociais
:
1) O que se deseja monitorar? A imagem/reputação da organização? A imagem de marcas? A Imagem de pessoas? É pra acompanhar apenas uma empresa ou também os seus concorrentes?
A organização tem que ter os seus objetivos absolutamente claros porque é a partir deles que será organizado o resgate do material sobre ela, definidas as palavras-chave nos sistemas de busca e assim por diante. Um conselho: o negócio é ser seletivo neste momento porque não adianta querer varrer tudo porque se pode recuperar um volume tão grande de informações e tão disperso que a análise ficará comprometida. Seria incorrer no mesmo erro que algumas assessorias/agências cometem na auditoria de imagem na mídia quando confundem medição de clipping com avaliação da presença ou visibilidade das organizações. Busque e avalie apenas o que é relevante, pertinente, estratégica. Muita informação é diferente de boa informação.

2) Que perspectiva ou perspectivas se pretende incorporar na análise? Essencialmente qualitativa? Essencialmente quantitativa? Ou, o que é o ideal , harmonizar as perspectivas quantitativa e qualitativa porque é necessário sempre saber quem fala, quanto fala, com que públicos interage e com que grau de intensidade.

Isto feito, será possível estabelecer indicadores de presença ou de menção nas redes sociais (quantos falam e quantos são atingidos?), avaliar a angulação das opiniões e mensagens (positiva ou negativa), fazer a qualificação das fontes (nível de influência que podem ter, o que não é apenas ver quantos seguidores uma determinada fonte tem no twitter), detalhar os temas associados à organização etc etc.

3) O momento seguinte é criar um protocolo (tabelas, escalas ) para sistematizar a coleta de dados, permitindo agrupá-los segundo categorias previamente definidas. Aqui entram o conhecimento e a criatividade do pesquisador/consultor, sempre em sintonia com a proposta, os objetivos da organização. Essa história de projeto padronizado de auditoria não vale para o velho monitoramento da mídia impresso e se mostra totalmente inadequado para as redes sociais, muito mais fugidias e complexas.

4) Finalmente, é feita a análise propriamente dita e que flui dos dados sistematizados, culminando com uma série de conclusões e recomendações. Tudo isto irá compor o relatório a ser encaminhado à chefia ou interessados (se a auditoria é feita pela equipe interna da organização) ou ao cliente (se ela for realizada por agência ou assessoria/consultoria terceirizada).

Uma dica fundamental: em todos os casos , será necessário um período de teste para avaliar a consistência das categorias de análise, a abrangência dos sistemas de busca e mesmo a adequação dos protocolos definidos para a consolidação dos dados. É boa prática em pesquisa proceder a um pré-teste para calibrar os instrumentos de análise e ela se aplica (e como) também a esta situação particular. Recomenda-se que este período não seja muito reduzido porque estamos lidando com realidades novas (os projetos tradicionais de auditoria já têm sido há anos testados na prática, mas os que envolvem as redes sociais, não) e a pressa, nesse caso, é mais do que nunca inimiga da perfeição. Esta deve ser buscada mas nunca será obtida nos trabalhos em comunicação porque ela, assim como as ciências humanas em geral, têm a mania de serem desobedientes, rebeldes, com contornos às vezes surpreendentes, não flagrados por instrumentos toscos.

Há equívocos recorrentes e que podem (e costumam) ser cometidos nos projetos de monitoramento das redes sociais mas, dado o escopo deste artigo, vamos mencionar apenas três deles, talvez os principais: a) fazer este acompanhamento por um período curto ou esporadicamente e não vê-lo com uma perspectiva essencialmente estratégica; b) ter como objetivo o desejo de neutralizar /calar as vozes divergentes – pressionar os adversários nas redes sociais; c) ignorar que as redes sociais não podem ser controladas porque não têm fim ou começo, grandes líderes etc.

No primeiro caso, não se pode repetir o erro de organizações que contratam, de vez em quando, projetos de auditoria de imagem apenas como mero registro ou curiosidade. Ou a auditoria vai ser feita sistematicamente para permitir a intervenção imediata ou ela não tem qualquer valor estratégico. Se é para avaliar a “brincadeira” tem que ser para sempre porque organização séria não brinca de faz de conta, tipo “vamos ver o que estão falando da gente na rede”?

Já a intenção de descobrir e silenciar as vozes discordantes, que impactam a imagem ou reputação das organizações, não faz muito sentido porque as redes sociais costumam funcionar como uma Rádio Peão planetária , muito sensível ao autoritarismo, à falta de sensibilidade ou à tentativa de pressionar blogueiros, twitteiros etc. Muitas vezes é isso mesmo que desejam aqueles que têm opinião contrária. O ideal é que a organização tenha humildade, inteligência e que tente descobrir os motivos , as razões pelas quais aquela informação, posição etc está sendo veiculada. Muitas organizações correm atrás dos efeitos e se esquecem de resolver as causas.

É sempre bom não esquecer (vale como exemplo): os twitteiros , blogueiros ou integrantes de um grupo de discussão (as tribos cibernéticas) falam mal do Speedy porque ele dá apagões sucessivos, vociferam contra os bancos porque eles cobram juros extorsivos, detonam as agroquímicas por elas emporcalham o meio ambiente com o veneno que fabricam. Ou são como eu: colocam a Monsanto, Souza Cruz, farmacêuticas ou o amianto na berlinda porque são, respectivamente, empresas e produto que andam repetidamente pisando na bola, penalizando os cidadãos. E os exemplos não ficam por aí, infelizmente, porque podemos citar a arrogância da comunicação da Vale e da Petrobras, o descaso das empresas aéreas com os seus clientes , o preconceito do Carrefour contra negros e homossexuais e os sucessivos crimes de assédio moral da Ambev. A lista é imensa e não dá para finalizá-la aqui. Mas as redes sociais se incumbem de punir exemplarmente as empresas que cometem deslizes éticos, afrontam o meio ambiente e maltratam os seus próprios funcionários (A Embraer deu de uma vez só uma facada nas costas de 4.200 “colaboradores” e achava que ia ficar de graça?).

Por fim, as organizações precisam estar cientes de que as formas de controle tradicionais não funcionam aqui (é muito mais fácil cooptar certos empresários de comunicação prometendo anúncios para impedir que os seus veículos falem mal das organizações!). Levar os integrantes das redes sociais para os tribunais, usar a mão forte da censura para impedir que falem delas, pedir o fechamento de comunidades no Orkut etc só ajuda a aumentar as labaredas, funciona como combustível para as redes sociais.

Há muitos desafios a enfrentar mas é melhor que as organizações comecem a se capacitar agora para essa luta e mudem de postura: a época do conforto institucional acabou. As redes sociais terão cada vez mais gente, serão cada vez mais críticas e perdoarão cada vez menos as mazelas, os desrespeitos, a truculência e a falta de competência ou profissionalismo das organizações. Ao contrário do que se pode imaginar, lidar com as redes sociais não é tarefa para amadores.

Ou as estruturas (e posturas) de comunicação das organizações assumem definitivamente um perfil estratégico, respaldado em bancos de dados, metodologias refinadas, visão abrangente e compromisso com o bom relacionamento com os públicos de interesse ou estarão correndo sério risco de esvaziamento ou deterioração.

O jogo está aí para ser jogado. Para vencer nas redes sociais, o segredo não está na força, mas na inteligência, na criatividade, no talento em comunicação.

A onça definitivamente vai beber água. Os profissionais éticos e que não perdoam o amadorismo em comunicação estarão, como eu, em cima da árvore, à beira do rio, vendo as organizações incompetentes, autoritárias, não profissionais que se aproximam incautas do formidável felino. As redes sociais costumam pegar estas organizações na jugular. É morte certa. Mas de agora em diante, ninguém pode alegar que foi por falta de aviso. E uma dica final: pior do que não ver a onça e ser por ela atacada é cutucá-la com vara curta. Pode ser fatal.

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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e professor de Jornalismo da ECA/USP. Diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. (comunicacaoempresarial.com.br)

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Comentários sobre Marshall McLuhan

Posted by analisesdejornalismo em outubro 29, 2013

Criador da idéia de “aldeia global” trouxe para a educação novo enfoque, baseado em suas teorias sobre comunicação. “Uma rede mundial de ordenadores tornará acessível, em alguns minutos, todo o tipo de informação aos estudantes do mundo inteiro”. Em tempos de internet, essa frase é óbvia. Quando foi dita, há 25 anos atrás, parecia extraída de um livro de ficção. O autor, um canadense chamado Marshall McLuhan, foi chamado de sonhador a louco, conforme a simpatia que suas idéias provocavam.

Em1964, McLuhan publicou um livro chamado Understanding Media, que, em português ganhou o título de Os meios de comunicação como extensões do homem. Ao publicá-lo, talvez não imaginasse que estava lançando um dos clássicos da comunicação – mais discutido do que lido, mais desprezado do que estudado.

A grande novidade do autor em relação à educação é o enfoque, baseado em suas teorias sobre comunicação – mais uma vez, adiantando-se à criação de um campo de estudos, Comunicação e Educação, que só seria explorado na década dos 90.

“Em nossas cidades, a maior parte da aprendizagem ocorre fora da sala de aula. A quantidade de informações transmitidas pela imprensa excede, de longe, a quantidade de informações transmitidas pela instrução e textos escolares”, explica McLuhan, em seu livro Revolução na Comunicação.

McLuhan propõe que, até o surgimento da televisão, vivíamos na “galáxia de Gutemberg” onde todo o conhecimento era visto apenas em sua dimensão visual. Sua idéia é simples: antigamente, o conhecimento era transmitido oralmente, por lendas, histórias e tradições. Quando Gutemberg inventou a imprensa, permitiu que o conhecimento fosse mais difundido. Mas, por outro lado, reduziu a comunicação a um único aspecto, o escrito. “Antes da imprensa, o jovem aprendia ouvindo, observando, fazendo. A aprendizagem tinha lugar fora da aula”, explica o autor.

Lauro de Oliveira Lima, um dos maiores especialistas brasileiros em Jean Piaget mostra, em Mutações em Educação Segundo McLuhan, que “o professor brasileiro não atingiu sequer a utilização do livro. Comporta-se ainda como o ‘lector’ medieval que recitava papiros e pergaminhos para uma platéia analfabeta”.

Crítico feroz da escola tradicional, o autor canadense aponta os defeitos do sistema atual, que, segundo ele, prefere criticar a mídia, em vez de utilizá-la como aliada na educação. “Poucos estudantes conseguem adquirir proficiência na análise de um jornal. Ainda menos têm capacidade para discutir com inteligência um filme.” Irônico, afirma que “a educação escolar tradicional dispõe de um impressionante acervo de meios próprios para suscitar em nós o desgosto por qualquer atividade humana, por mais atraente que seja na partida”.

Um erro, em sua concepção, é a orientação da escola com vistas exclusivas ao mercado de trabalho. “A educação era, até agora, uma tarefa relativamente simples: bastava descobrir as necessidades da máquina social e depois recrutar e formar o pessoal que a elas correspondesse”, explica o autor no livro de Oliveira Lima.

Mais do que a matéria extraída de livros, afirma McLuhan, o ponto de partida para a educação é a vontade do aluno em aprender. “Onde o interesse do estudante já estiver focalizado, aí se encontra o ponto natural de elucidação de seus problemas e interesses”, completa. “A educação escolar tradicional suscita em nós o desgosto por qualquer atividade humana”

Um de seus mais famosos conceitos é o de “aldeia global”. Em seu livro O meio é a massagem afirma que “a nova interdependência eletrônica cria o mundo à imagem de uma aldeia global”. Quando ele falou isso, a coisa mais parecida com internet que existia eram as redes de computadores militares norte-americanas. Computador pessoal era apenas um sonho, distante.

A evolução tecnológica deixa, aqui, de ser mera coadjuvante na vida social: o que é dito é condicionado pela maneira como se diz. O próprio meio passou a ser a principal atração, a informação. Muitas das páginas que estão na internet, por exemplo, poderiam ser livros ou revistas, mas, segundo McLuhan, tornam-se interessantes justamente por que estão em um novo meio de comunicação.

Isso não significa, é claro, ser passivo diante da mídia. “A tarefa educativa não é fornecer, unicamente, os instrumentos básicos da percepção, mas também desenvolver a capacidade de julgamento e discriminação através da experiência social corrente”, diz o autor.

Uma das mais curiosas idéias de McLuhan é a de que “os meios de comunicação são extensões do homem”. Assim como se usa uma pinça para aumentar a precisão das mãos e uma chave de fenda para girar um parafuso, os meios de comunicação seriam, na verdade, extensões dos sentidos do homem. Os óculos, por exemplo, são extensões do olho, a roupa é uma extensão da pele, a roda do carro é uma extensão do pé. Com a internet, não deixa de ser curioso se falar em “relações virtuais”, como se as máquinas fossem realmente capazes de sentir e pensar pelos seus operadores.

Muito antes de alguém falar em “aspectos lúdicos da educação”, McLuhan já dizia que o estudo deveria ser uma atividade divertida. A escola, para ele, ainda não tinha percebido essa realidade óbvia. E completa: “É ilusório supor que existe qualquer diferença básica entre entretenimento e educação. Sempre foi verdade que tudo o que agrada ensina mais eficazmente”.

O pajé da aldeia global

Herbert Marshall McLuhan nasceu em 1911, no Canadá. Formado pela Universidade de Manitoba, lecionou em diversas faculdades de seu país até conseguir o Ph.D. em Cambridge, em 1942. Tornou-se professor titular de literatura na Universidade de Toronto em 1952, cargo que exerceu durante toda a sua vida. Autor de inúmeros artigos para revistas científicas, tornou-se mundialmente famoso em 1964 ao publicar Understanding Media, onde expunha suas teses sobre a tecnologia e o conhecimento. Acumulando prêmios, defensores e inimigos, McLuhan publicou outros livros divulgando suas idéias, mantendo sempre a linha polêmica até sua morte, em 1980.

O profeta da eletrônica deixou muitos livros e artigos; a maioria esgotados no Brasil, alguns facilmente encontrados em sebos

Os meios de comunicação como extensões do homem (Cultrix)
A Galáxia de Gutemberg (Cultrix)
Revolução na Comunicação, (Jorge Zahar)
O meio é a massagem, (Record)

Fonte: Revista Educação (nº 46, 10/2001)
Maria Isabel Moura Nascimento. GT: Campos Gerais-PR-Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG

http://www.histedbr.fae.unicamp.br/

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O liberal Lippmann é pioneiro para os estudos de jornalismo

Posted by analisesdejornalismo em outubro 27, 2013

Por Lia Seixas

Walter Lippmann, hoje um autor clássico nos estudos de jornalismo, passou pelo socialismo, morreu liberal e falou pela primeira vez proposições repetidas por vários pesquisadores por todos esses anos, desde 22, quando publicou “Opinião pública” (livro que lemos no grupo e para o qual fizemos uma apresentação, que vai aqui sem muita formatação, mas com o que consideramos importante destacar sobre essa obra e o autor). Lippmann questionou a democracia, discutiu o socialismo em sua famosa coluna de jornal.

A tese do livro, para nós, é que a opinião pública é baseada em estereótipos. Defende que as notícias seriam um produto estandardizado. Daí, alguns autores (como Jorege Pedro Sousa) considerarem que ele antecipou a teoria da construção da realidade. O cidadão comum não teria informação de qualidade. Lippmann, por isso, é considerado um autor elitista. Curioso que ele seja tão incensado hoje por intelectuais que discordam disso.

Lippmann disse pela primeira vez afirmações acreditadas e algumas fortalecidas hoje, como: cobertura é fragmentada (episódica) e descontextualizada (p.190 de “Public Opinion” – ver referência abaixo); o material jornalístico precisa ser estilizado (linha editorial); a existência da hierarquização; a necessidade da rotina para o editor (p.191 de “Public Opinion” – ver referência abaixo ); a necessidade do assessor de imprensa; o jornal tem que fazer com que o leitor se identifique. Defendeu a necessidade de uma formação específica para o jornalismo.

Discutiu pela primeira vez:
A. a diferença entre o “mundo exterior” e  “as imagens em nossas cabeças” (imagens estereotipadas da realidade);
B. o conceito de verdade no jornalismo;
C. democracia. A democracia não garantiria “informação perfeita”;

Criou conceitos:
1. manufactured consent = o jornalismo contribui para construir consensos;
2. pseudo-ambiente:
“Para Lippmann, é evidente o papel que essas “imagens em nossas cabeças” têm na formulação de crenças preconcebidas. E aqui podemos entrar em outro conceito pioneiro do pesquisador norte-americano, o de pseudo-ambiente, apontado como o conjunto de imagens criadas indiretamente pela ação da mídia e do noticiário em nossos mapas mentais. Ou seja, uma realidade estruturada não com as informações e o conhecimento obtidos por experiências vivenciadas por nós mesmos, mas sim, uma realidade aprendida com aquilo que obtemos da mídia” (LENZI, 2009, disponível em Observatório da Imprensa).

Contexto
Em 22, já havia passado a primeira guerra mundial. O lead é de 1920. Discutia-se o nascimento do jornalismo moderno, fundamentado na publicidade. Pesquisava-se com a teoria hipodérmica. Discutia-se jornalismo como espelho da realidade. Já era forte a discussão do socialismo. A Revolução Bolchevique começa em 1917. O primeiro livro do “Capital” começou a ser lançado em 1867. Ele tinha uma compreensão pessimista da mídia da época, quando os pesquisadores são influenciados pela I Guerra.

Creio que valor-notícia só veio a ser debatido na década de 60, portanto em 22 Lippmann inaugura, mas pelo viés da política e da opinião pública. Nele estaria também, defende-se, a origem do conceito de agendamento. Kunczik cita Daniel Hartnack, que teria sido o primeiro a defender tese sobre jornalismo em 1688. Depois cita Tobias Peucer, ao tratar da publicação de jornais na Alemanha em 1690. Falava-se em tipos de eventos. Ele é considerado o primeiro autor a empregar o termo “valores informativos”. O atigo “Para pensar critérios de noticiabilidade” de Gislene Silva destaca: “Lippman: clareza, surpresa, proximidade geográfica – leitor tem que se identificar; impacto e conflito pessoal”.

Autor

De família judia abastada, ele nasceu em 23 de setembro de 1889 em Nova York. Entrou tarde na universidade (depis de 10 anos já de jornalismo). Fez Harvard. Foi editor da “New Republic and World”. Escreveu a coluna “Today and Tomorrow”, com a qual ganhou 2 prêmios Pulitzer. Saiu em 1920 (quando tinha 31 anos) da New Republic de foi para New York World. Foi assessor de republicanos e democratas. Escreveu outros livros: A preface to politics (1913), Drift and Mastery (1914; no qual rejeitou o socialismo); A teste of the news (1920); The Cold War, Liberty and the News (1920) , além de Public Opinion (1922) e The Phantom Public (1925). Nestes dois últimos, entende-se que Lippmann colocou dúvidas sobre a possibilidade de uma verdadeira democracia nas sociedades complexas. Depois da segunda guerra, ele voltou para o liberalismo. Tinha visão elitista da sociedade. Ele morreu em dezembro de 1974. Seus campos de conhecimento, então, eram o jornalismo e a política.

Referências

BLUMENTHAL, Sidney. Walter Lippmann and the American journalism today. Open Democracy, 2007. Disponível em: http://www.opendemocracy.net/article/democracy_power/america_inside/walter_lippman.

CUNHA, I.; CABRERA, A.; SOUSA,J.; Pesquisa em Mídia e Jornalismo, Homengagem a Traquina (orgs.) Covilhã: Labcom Books, 2012. Disponível em: http://www.livroslabcom.ubi.pt/book/90. (Destaque para capítulo 02 e 04)

KUNCZICK, Michael. Conceitos de jornalismo; norte e sul. São Paulo: Edusp, 2001.

LENZI, Alexandre. Lippmann, Kovach e Rosenstiel, um diálogo após décadas. Observatório da Imprensa, edição 556, 2009. Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/lippmann_kovach_e_rosenstiel_um_dialogo_apos_decadas.

LIPPMANN, Walter. Public Opinion. Nova Yirk: Dover Editions, 2004. (livro de 1922. Destaque para a parte VII, “Jornais”)

PADILHA, Sônia. Os valores-notícia no webjornalismo. Anais do 10º SBPJor, Curitiba, 2012. Disponível em: http://soac.bce.unb.br/index.php/ENPJor/XENPJOR/paper/viewFile/1689/286. (Tem um bom histórico dos estudos sobre valor-notícia)

SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. In: Estudos em Jornalismo e Mídia 
Vol.II Nº 1 – 1º Semestre de 2005. Disponível em:
https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/2091/1830. (Virou um clássico com a diferenciação entre as noções de valor-notícia e critérios de noticiabilidade)

SPARTACUS EDUCATIONAL. Walter Lippmann. Disponível em: http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/USAlippmann.htm. (Detalhe: dentro de “Political Leaders”)

SOUSA, Jorge Pedro. Pesquisa e reflexão sobre jornalismo até 1950: a institucionalização do jornalismo como campo de conhecimento e campo científico. Biblioteca On-Line de Ciências da Comunicação. Disponível em: http://bocc.ubi.pt/pag/sousa-jorge-pedro-pesquisa-e-reflexao-sobre-jornalismo-1950.pdf.

Fonte: Núcleo de Estudos em Jornalismo.

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A briga Globo x Record

Posted by analisesdejornalismo em agosto 18, 2009

Um exemplo de como a realidade pode ser construída

Por Bruno Barros Barreira

tvA briga entre a Globo e a Record possui acusações sérias para ambos os lados. Mas o objetivo deste artigo não é fazer uma análise dessas denúncias e tentar descobrir o que há realmente de verdade nas reportagens, claramente tendenciosas de ambos os lados. O nosso objetivo é mostrar como, de fato, o que chamamos de realidade pode ser moldado, construído por instituições como mídia, igreja, partidos e outros que carregam ideologias liberais, conservadoras, reacionárias, contestadoras etc.

Isso porque as representações sociais transmitidas por esses conjuntos interpretativos são capazes de nos ajudar a entender o mundo de uma forma específica. Como já dissemos no artigo “A mídia e as representações sociais” a forma de um muçulmano entender o mundo, certamente, não é a mesma de um cristão.

Dois mundos diferentes

O conjunto de valores difundidos pelas duas emissoras mostra comportamentos e aceitações de um bloco ético totalmente diferente. E isso ainda é reforçado com o uso da linguagem jornalística pelas duas principais emissoras de TV do país, que se aproveitam da imagem de credibilidade histórica do jornalismo em si, solidificada ao longo da história do século XX – que nos levou a autorizá-lo a dar suas versões do que chamamos de realidade no contexto Ocidental.

Visão liberalista x visão religiosa

A Globo, por exemplo, com sua ideologia liberalista, coloca como ultrajante o fato de diversos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus doarem bens como casas, veículos e grandes quantias de dinheiro à instituições para, depois, ser usado pela igreja na compra  de uma emissora de TV, financiá-la e investir em melhorias em forma de doações.

Mas, na visão religiosa e conservadora dos fiéis da Universal, essa prática, mesmo que não declarada oficialmente, não incomoda e nunca os incomodou. Teoricamente, eles seriam os maiores interessados, mas ainda acreditam que é de direito da igreja doar o dinheiro para qualquer atividade, desde que para fins não ilícitos.

Assim, no conjunto de valores formado pelos fiéis da Universal não há motivos para o ministério público condenar as ações da Igreja e, conseqüentemente, prejudicar a emissora Record, uma vez que os fiéis não doam os dízimos e ofertas de forma forçada, mas livremente, exercendo o direito de liberdade religiosa e ainda apóiam e dão total liberdade para a igreja usá-lo como quiser.

E, de fato, pela lei, não se configura como crime as ações da Universal, muito embora este autor também concorde ser um absurdo as gordas doações feitas por seus fiéis à instituição religiosa. Um exemplo claro de como as representações sociais moldam a nossa forma de ver o mundo.

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A mídia e as representações sociais

Posted by analisesdejornalismo em agosto 14, 2009

Análise de alguns produtos midiáticos: CQC, Caminho das Índias e Folha de São Paulo

por: Bruno Barros Barreira

Podemos dizer que a mídia é a principal janela interpretativa da vida contemporânea. Por ela conhecemos o mundo através dos desenhos, filmes, seriados, jornalismo, talk shows, entre outros produtos são produzidos para atrair o maior número de pessoas (consumidores) possível e gerar lucros. É por ela que construímos uma ideia de como são os povos do outro lado do mundo, de como se comportam cidadãos de diversas culturas, classes e etnias. Dessa forma, podemos também absorver seus valores, sua forma de ver o mundo, seu ethos liberalista ou conservador. Ou seja, tomar a interpretação da mídia como verdade e, assim, construir a nossa visão política.

Antes de continuar, faço uma ressalva. Esse texto não se trata de uma maneira de mostrar que existe uma manipulação poderosa e irresistível por trás das grandes produções midiáticas de tal forma que a elite – com total domínio dos meios – controla o pensamento das massas de forma irrepreensível. Não, como se sabe, a teoria da manipulação pura e simples é uma argumentação ultrapassada.

Trata-se, portanto, de fazer uma leitura crítica e mostrar que todos os produtos da mídia carregam pontos de vista culturais e sociais específicos, que nos ajudam na construção do entendimento da realidade. Ou seja, é através da difusão das “representações sociais e culturais” veiculadas na mídia, que certos valores são perpetuados, rejeitados ou transformados.

Para entender melhor o que são essas representações, apresento uma pequena análise de três produtos midiáticos atuais: o programa CGC (transmitido pela Band), a novela Caminho das Índias (Rede Globo) e o jornalismo da Folha de São Paulo.

Representações no CQC

Em menos de um ano, o CQC (Custe o que Custar) ganhou notoriedade e forte audiência no país. As representações contidas no produto são variadas. Há representações ideológicas positivas e outras negativas. No lado positivo, pode-se argumentar que o programa apresenta jovens honestos, extremamente insatisfeitos com a corrupção na política e na sociedade, chegando a sofrer ameaças de censuras. Assim, pode-se dizer que sua representação serve como uma espécie de “incentivo” aos jovens para tomar consciência política cidadã; exigir conduta ética de seus representantes e combater a corrupção.

Já do lado negativo, pode-se dizer que o programa possui o seguinte “eu ideológico”: é totalmente formado por homens, brancos e representantes da classe média e alta paulista. Diversas piadas machistas são feitas durante o programa e, não raro, sexistas, colocando a mulher como simples objeto sexual. Não é à toa que o programa já foi processado diversas vezes. Um exemplo que ficou notório foi o caso das integrantes do grupo musical Sexy Dolls, que foram chamadas de prostitutas pelo apresentador Marcelo Tass. O lado machista do programa também é reforçado pelas piadas e brincadeiras satirizando os homossexuais, com ironias sobre comportamentos que seriam “típicos” de um gay, entre os próprios integrantes, às vezes, como se fossem vergonhosos. Assim, sua representação ideológica aponta para o homem branco heterossexual, honesto, machista, sem espaço claro para outras etnias.

Representações em Caminho das Índias

Produto cultural bem mais complexo, a novela envolve várias representações sociais e culturais bem mais diversas. Na verdade, seria necessário um livro para analisá-la corretamente à luz dos Estudos Culturais. Pode-se argumentar que o programa mostra como é errado e ignorante qualquer tipo de preconceito, assim como a exclusão social ao dramatizar a vida dos integrantes da casta indiana Dalits, considerados pó e não filhos do deus supremo. Ao mesmo tempo, pode-se dizer que a dramatização das castas indianas aponta, de maneira velada, contra o radicalismo religioso de alguns segmentos no Brasil, como no caso dos neopentecostais e até mesmo da Igreja Católica – contrária ao uso de métodos anticoncepcionais.

Ao mesmo tempo, é possível notar alguns traços conservadores. A novela reforça os laços familiares, principalmente quando compara os valores das famílias brasileiras com as da Índia. O que leva a uma reflexão da importância do respeito aos pais, à esposa e aos filhos. Assim, de maneira sutil, acaba fazendo uma critica aos valores liberalistas culturais, ao mostrar que as conservadoras famílias indianas estariam sendo desmembradas, justamente por uma onda liberal ocidental, tornando-as infelizes.

Essa visão, no geral, acaba retomando a posição conservadora patriarcal da família, onde o homem deve ser peça fundamental para guiá-la, no intuito de torná-la bem sucedida. Caso contrário, poderá ser um desastre. Fato reforçado pela imagem da família do personagem Zeca, onde o pai, Sérgio, não “controla” os momentos impulsivos da esposa, nem coloca limites nos filhos. A falta de atitude paterna faz com que Zeca seja rebelde e arruaceiro.

A posição conservadora também é vista no personagem Raul (na ocasião, marido da Silvia), que acabou pagando um alto preço por causa de seu adultério com a vilã Ivone. O que mostrou que pode ser extremamente arriscado e doloroso ao homem cometer adultério, não vale a pena. Já a vilã Ivone, uma das poucas mulheres independentes da trama, é mostrada como ambiciosa, criminosa, cínica e totalmente desprovida de moralidade, associando às mulheres solteiras e independentes a uma imagem misteriosa e pouco confiável.

Representações na Folha de São Paulo

O jornalismo atual possui diversas teorias bem articuladas. Elas possibilitam análises esclarecedoras sobre o processo de produção de notícias. Uma delas, inserida no grupo que compõem as teorias construcionistas do jornalismo (Newsmaking), é a Teoria Interacionista ou Teoria dos Definidores Primários. Tendo essa perspectiva em mente, vamos à pequena análise.

Todos sabemos que o jornal Folha de S. Paulo é voltado para os valores liberalistas. Portanto, sua representação social contribui para construção de uma realidade que acredita na intervenção mínima do Estado na economia, na privatização, no liberalismo econômico e cultural. É extremamente cosmopolita e, historicamente, simpatizante dos partidos de direita.

As vozes sociais ouvidas na grande maioria das reportagens parte da subordinação às opiniões das fontes que tem posições institucionalizadas, também chamadas de definidores primários. Essas fontes definem o rumo de qualquer notícia. Como diz Nelson Traquina no livro “Teorias do Jornalismo”: “essa interpretação comanda a ação em todo o tratamento subseqüente e impõe os termos de referência que nortearão todas as futuras coberturas”.

Assim, quando a Folha de São Paulo ouve algum “mega economista”, dizendo que o governo deve enxugar sua folha de pagamento, se posicionando contrariamente à grande criação de concursos públicos, parte de uma visão que defende os interesses da classe de empresarial hegemônica. Ela gera uma série de outras reportagens que partem da primeira visão liberalista. A representação interpretativa inicial, portanto, acaba saindo como uma verdade norteadora das reportagens seguintes, inclusive quando se ouve opiniões contrárias.

Prevalece sobressalente, portanto, a crença num mundo liberalista econômico e contrário ao crescimento do Estado. Recentemente, por exemplo, a Folha de S. Paulo defendeu, em editorial, o fechamento da TV Brasil, afirmando que a mesma é um claro sinal de desperdício do dinheiro público. De maneira bem clara, quis afirmar que a melhor saída será sempre a iniciativa privada.

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