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Fraser Bond e a caça às definições profissionais do jornalismo

Posted by analisesdejornalismo em novembro 12, 2013

Por Adriana Santiago*

Fraser Bond escreveu o livro em 1954, no contexto de mudanças na sociedade do pós-guerra e a abertura democrática. O jornalismo incorporou todas as tecnologias desenvolvidas na II Guerra Mundial, a televisão tornou-se um meio poderoso, e a propaganda vendia de tudo, produtos ou pessoas. O consumo explodiu. Ao mesmo tempo em que surgiram os beatniks, geração que se voltou contra o materialismo, usou drogas e lutou pela liberdade sexual, um estilo de vida que iria encontrar uma maior aceitação na década de 1960 e 1970 [2]. O cinema e a música roqueira elevaram a necessidade de compreender essa Indústria Cultural [3] (ADORNO & HORKEHEIMER, 1942) e seus efeitos.

No período compreendido entre 1950 e 1956, o congresso estadunidense estava preocupado com a Guerra Fria, um tempo que ficou conhecido como o “terror vermelho” (red scare), Macarthismo ou ainda “caça às bruxas”. O senador republicano Joseph McCarthy começou sua cruzada para livrar os Estados Unidos do comunismo. Esta década viu o crescimento do movimento feminista, dos direitos civis, principalmente contra o racismo, e demais manifestações democráticas que culminaram nas passeatas de 60, daí vê-se a tendência ao democratismo nas elaborações sobre o jornalismo. A necessidade de ver o jornalismo como agente social e promotor de democracia praticamente emerge neste contexto.

O impacto no Brasil

O Brasil, como os demais países latino-americanos influenciados diretamente pelo contexto dos Estados Unidos, reagiu com reflexos claros dessas mudança. Na década de 50 e início dos anos 1960, o jornalismo brasileiro também passava por diversas transformações e sedimentações das suas rotinas e status. Foi um tempo de surgimento novos meios nacionais, da modernização das técnicas e da definitiva profissionalização da atividade. Nesta década, a televisão se consolidou e surgiram as revistas da Editora Abril e a revista de entretenimento Manchete, da Editora Bloch, dando uma nova lógica para o seguimento, incrementando o filão do entretenimento.

O jornalismo tradicional, representado pelo Jornal do Brasil com sua reforma gráfica em 1956, deu o tom a toda a imprensa nacional. O JB, um dos mais importantes do país, modificou a linha editorial, rotina produtiva e introduziu um novo padrão visual para os nossos jornais [4]. O contexto histórico, passa pelo suicídio de Getúlio Vargas e as reformas modernizadoras de Juscelino Kubitschek. O Brasil se modernizava e também entendia o avanço dos meios de comunicação. Desta forma, Luiz Beltrão [5] o tomou como base em seu livro de 1960, quando o jornalismo brasileiro também passava por diversas transformações e sedimentações das suas rotinas e status, e pautou vários estudos no que hoje é chamada no Brasil de Teoria do Jornalismo, durante muito tempo. Hoje é um clássico, e uma pesquisa por citação no Google Acadêmico [6] em páginas do Brasil, a pontam cerca de 300 citações. De Fraser Bond (1962) a Mauro Wolf (1995), busca-se identificar os elementos de interesse da notícia ou critérios de noticiabilidade, ou seja, os atributos que fazem com que determinados fatos rompam a barreira dos gatekeepers (White, 1951) e sejam selecionados como notícia. Afinal, um evento que é notícia hoje, pode não ser amanhã.

O livro

A obra é um manual para estudantes dividido em 25 partes, que detalha as etapas do processo produtivo de 1950, já bastante defasado, porém é bem claro quando trata da necessidade do jornalismo sair do amadorismo, uma vez que as empresas jornalísticas são cada vez mais organizações comercialmente sólidas, sendo necessário situar o profissional na conjuntura e responsabilidade éticas. Assim, avalio como o grande legado o ensaio de definição da razão de ser do jornalismo, tendo como destaque os capítulos que tratam da natureza do jornalismo e das notícias (capítulos I e V). Logo no início, o autor começa tratando da natureza do jornalismo, a partir dos deveres e objetivos da prática, colocando o jornalismo como agente de responsabilidade dentro da sociedade, ou seja, no contexto deontológico. No capítulo ‘Natureza da Notícia’, o autor avança na reflexão do que diz respeito aos “valores da notícia’ e antecipa em 1959, alguns dos 12 critérios de noticiabilidade enumerados por Galtung e Ruge, em 1965 [7]. Veremos mais detalhadamente estes dois capítulos ainda neste ensaio.

Fraser Bond explica didaticamente as várias narrativas e veículos, sempre as vinculando ao interesse do público e ao gosto popular, ao leitor comum, algumas vezes vinculando-os à necessidades de entretenimento e serviços. Explica detalhadamente a organização dos jornais com as várias seções e a empresa em si, assim como rotinas produtivas da época e funcionamento do jornal, enfatizando objetivos e conteúdo, destacando que o jornal tem quatro razões principais pra existir: informar, interpretar, servir (a comunidade, ao leitor, ao anunciante) e a divertir. Ao dizer isto, conecta-se com a lógica do pensamento estadunidense da época, de consumo e democratismo.
Quanto aos conteúdos, além de ensinar a ler um jornal, chama a atenção quando fala de governo e política, estabelecendo já o procedimento de objetividade, atualmente básico, de ‘ouvir’ os lados da notícia.

Antigamente, os jornais americanos interessaram-se principalmente pela política, e davam seu maior espaço às notícias a ela relativas. Frequentemente, isto consistia em pouco mais que propaganda partidária. Hoje o noticiário político tem menos espaço, porém mais exatidão na informação. [….] O hábito crescente, agora, é apresentar opiniões contrárias lado a lado, simultaneamente com exposição da própria opinião do jornal (BOND, 1959, p.113).

Como todo manual, fala dos tipos de narrativa e como escrever o lead, o que é pirâmide invertidas e os tipos de notícias, o estilo e a linguagem usados no jornalismo. Inclusive tenta teorizar sobre o jornalismo e a crítica de arte, tentando classificar suas diferenças em relação à notícias comum, embora deixe claro que o jornalismo sobre as artes não é a crítica literária. “(…)um colunista de jornal frequentemente vê-se apelidado de “crítico”. No caso do jornalista, isto é mais um caso de cortesia, pois a verdadeira crítica é outra coisa que não a apreciação jornalística” (BOND, 1959, p. 216). E já admite, assim, o jornalismo como diversão, que passa pelos usos da ficção, do humorismo e das histórias em quadrinhos, numa perspectiva bem mais ampla, é fato, do que hoje chamamos de jornalismo cultural.

Assim como falou em quadrinhos, também abordou o jornalismo imagético (ou pictórico), passando pelo uso das ilustrações à fotografia e as transmissões radiofônicas, sem entrar muito no contexto da televisão. Na época em que o livro foi escrito, já existiam emissoras de televisão nos EUA há 15 anos, embora a grande maioria da programação voltada para o entretenimento e propaganda política [8], talvez por isso Fraser Bond não tenha dedicado menos espaço para analisar a televisão do que aos impressos. Mesmo no capítulo XX dedicado ao jornalismo no rádio e na televisão, valoriza as rotinas do rádio. Em 1956, quando escrevia o livro, existiam apenas 108 estações de televisão no EUA, mas estavam em fase de expansão e ele vislumbrava que “o futuro papel da televisão como meio de comunicação aparece revestido da maior importância” (p.291). Mesmo assim, descreve as rotinas e funções profissionais que já se delineavam naquele meio.

Entre outras descrições de funções e rotinas do jornalismo, também fala sobre anúncios, publicidade e relações públicas; os arquivos de pesquisa e a necessidade de ser ter a biblioteca de referência, e os envolvimentos legais. Fala da responsabilidade social do jornalista e que não pode fazer injúria e difamação, já situando a diferença entre a liberdade de imprensa e a responsabilidade do jornalismo, detalha os aspectos legais em torno do fazer jornalístico, não só o que tange à ética e defesa de direitos, mas na própria divulgação e direito à informação.
Agora voltando à natureza do jornalismo e da notícia, no capítulo inicial do livro que trata da natureza do jornalismo, é importante observar o que Fraser Bond já inicia a obra tentando classificar os deveres do jornalismo. Uma vez que acredita que as definições de jornalismo variam de acordo com o ponto de vista. “Para o cínico, jornalismo é meramente um comércio; para o idealista, revela-se como uma responsabilidade e um privilégio” (BOND, 1959, p.1).

Os dois conceitos de jornalismo florescem quando há garantias de liberdade, sejam elas merecidas ou não. A primeira filosofia sustenta: “Dê ao povo o que ele quer”, a outra, “Dê ao povo a verdade que ele precisa ter (BOND, 1959, p.1).

O primeiro dever é que a “imprensa deve ser independente. “Apoiar-se em bases econômicas próprias, obtendo seus lucros sem ser subvencionada (BOND, 1959, p.3). As teorizações sobre o jornalismo passam sempre pela independência relacionando à questão do financiamento e modelo de negócio, um forma de alicerce do jornalismo, que sempre se pressupõe independente desde que a subvenção seja pelo público. Contudo, quando se industrializa e aumenta custos, embora também aumente o alcance, essa balança se desestabiliza. Seria o jornalismo uma atividade que não compactua com a comunicação de massa?

É importante levar em consideração a lógica dos fatos bem apurado, como John Thadeus Delane, diretor do jornal londrino The Times de 1841 a 1877, defende. “O dever do jornalista é o mesmo do historiador — procurar a verdade acima de tudo e apresentar aos seus leitores não o que a política estimaria que eles soubessem, mas a verdade tão profunda quanto ele a tenha podido atingir” (BOND, 1959, p.4).
O dever de a imprensa ser imparcial, se coaduna com a lógica conjuntural da época, onde acredita-se na possibilidade

de ideal de imparcialidade ser alcançado pelo jornalismo que evita erros ou tendenciosidade, preconceitos e sensacionalismo, é importante notar a presença do conceito de agente social e responsabilidade. De alguma forma, o ensaio de Fraser Bond coloca o jornalista em uma posição importante de alicerce democrático. Neste ponto, Bond alia-se a Beltrão e Schudson, que também colocam a promoção da democracia como função do jornalismo.

A glória da democracia, como muitos jornalistas têm salientado, está no fato de ser ela uma forma de governo que garante a continuidade dos direitos das minorias que não estão no poder. O jornalismo honesto é exatamente o meio de expressão dessas minorias porque não está sob controle do governo (BOND, 1959, p.4).

Embora, o autor ressalte o tempo como fator determinante da imprecisão, uma dialética digna de reflexão filosófica, diria Beltrão, ainda ressalta como deveres a exatidão, a honestidade, a responsabilidade e a decência.
Quanto trata dos objetivos do jornalismo de informar, interpretar, orientar e entreter (e fala em capítulos mais à frente em servir) o localiza como agente importante de compreensão da sociedade, agente formador de cidadania, embora ressalte que o “jornalismo dedica um esforço crescente à sua função de entreter”.

O pobre mortal comum preso a um labirinto de invenções, teorias econômicas e científicas, precisa ser guiado através de suas dificuldades. Assim, o jornalismo de hoje deve lazer com que chegue ao leitor ou ouvinte, além da notícia de um fato, de um acontecimento ou de uma teoria, também explicações, interpretações, material de base, e diagramas, orientados no sentido de ajudar o indivíduo a compreender melhor o que lê ou ouve. (BOND, 1959, p.6-7).

O autor ainda destaca as críticas feitas ao jornalismo que, normalmente, são feitas por seus maiores entusiastas. A primeira delas é que a imprensa é inexata, seja por enganos deliberados ou erros não intencionais, daí resume com a frase: “Não se pode acreditar no que se lê nos jornais” (BOND, 1959, p.8). A outra crítica, ainda muito atual, é de que a propriedade dos meios é limitada, nas mãos de poucos, e o que pode prejudicar a liberdade de expressão. Esse é o problema do Brasil, por exemplo, cuja comunicação está concentrada nas mãos de nove grandes famílias. As demais críticas dizem respeito ao conteúdo, como privilegiar a pauta de crime, assuntos menos importantes e que não promovem o bem comum, fatos sempre em concordância com a linha editorial; e às questões éticas, como o sensacionalismo, o material superficial, a manipulação de notícias e a não verificação do que publica.

A natureza das notícias discutida no capítulo V começa pela tentativa de entender ‘O que é notícia?”. O autor começa com o ideia de que a “notícia não é um acontecimento, ainda que assombroso, mas a narração desse acontecimento. Não o acontecimento real, mas a história ou o relato desse acontecimento que nos atinge” (BOND, 1959, p. 67.). E passa por várias definições de jornalistas famosos à época, como a Satanley Walker, que definia a notícia com um sumário sucinto: “Sexo, dinheiro e crime”, além da necessidade de ser de primeira mão, chega a definição que me parece ser a primeira de muitas. “Notícia é uma reportagem oportuna sobre coisa de interesse para a humanidade e a melhor notícia é a que interessa ao maior número de Ieitores”. (BOND, 1959, p. 68.).

Seguramente o gênero humano é sem dúvida o principal interesse do homem. A notícia, então, que mais interessa o leitor médio consiste em alguma coisa que o afeta – sua saúde, riqueza, segurança, bem-estar. (BOND, 1959, p. 68).

Dentre estes fatores que chamam a atenção do público chama atenção quatro deles que, segundo o autor, determinam o valor da notícia: oportunidade, proximidade, tamanho e importância, podendo conter um ou diversos desses aspectos que provocam interesse. Assim, classificou doze elementos de interesse da notícia: interesse-próprio, dinheiro, sexo, conflito, o incomum, o culto do herói e da fama, expectativa e interesse humano, acontecimentos que afetam grandes grupos organizados, disputa, descoberta e invenção; e crime. Esta relação de Fraser Bond antecipa já os critérios de noticiabilidade sistematizados por Galtung & Ruge (1965) e revistados por Gislene Silva[9] (2005):

Na sequência, vários pesquisadores propõem, a partir de seus trabalhos de campo, diversas listagens de atributos dos acontecimentos, características necessárias para que fatos fossem selecionados como notícias. Em 1965, como já foi dito, Galtung e Ruge, ao se perguntarem como os acontecimentos se transformam em notícias, chegaram a doze valores-notícia: frequência, amplitude, clareza ou falta de ambiguidade, relevância, conformidade, imprevisão, continuidade, referência a pessoas e nações de elite, composição, personificação e negativismo.

No decorrer da segunda metade do século XX, e a partir dos levantamentos feitos por Nelson Traquina, Mauro Wolf e Michael Kunczik e de textos de autores brasileiros como Manuel Carlos Chaparro, Mário Erbolato e Nilson Lage, pode-se encontrar diversos elencos de valores-notícia (Silva, 2005, p.101-102). Desta forma, observa-se que as angústias permeiam a subjetividade do jornalismo desde sempre e é necessário observar os fenômenos e entendê-los.

O Autor

F. Fraser Bond foi um os maiores especialistas em jornalismo na década de 1950-60 nos EUA e influenciou sobremaneira Luiz Beltrão e José Marques de Melo em suas produções, o que consequentemente se tornou referência constante nos estudos do jornalismo do Brasil. Para dimensionar ao leitor, uma busca rápida no Google Acadêmico, apontam mais de 500 resultados em textos em português. Bond professor na New York University, em um país com quase 50 anos de tradição de ensino do jornalismo, com a primeira escola de jornalismo fundada em 1904 por Joseph Pulitzer (Columbia School of Journalism). Para entender o espírito desta iniciativa é preciso entender como o jornalismo saiu de uma prática informal para um campo de estudo. A declaração de Pulitzer (1904) à época da gestação da escola pode nos dar um norte: “Precisamos de um sentimento de classe entre os jornalistas – baseado não no dinheiro, mas na moral, na educação e no caráter [10]. Desta safra de estudiosos, destacou-se na década de 1920, o americano Robert Ezra Park que realizou um dos primeiros desenhos relevantes para a construção de uma teoria do campo.

* Adriana Santiago é doutoranda no Programa Comunicação e Cultura Contemporânea (Poscom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor). Fonte: NJOR

[1] A edição original deste livro foi em 1954. A edição brasileira é de 1959. As citações do texto foram revisadas para a nova reforma ortográfica.
[2] MUSSER, Rick. Site Journalism history. University of Kansas, School of Journalism & Mass Communications, 1976-2008. International Thompson Publishing Company. Site http://history.journalism.ku.edu/ Acessado em 1 de outubro, de 2013.
[3] ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Traduzido por Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
[4] Site do Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, http://www.ccmj.org.br/ acessado em 2 de outubro de 2013
[5] BELTRÃO, Luiz. Iniciação à filosofia do jornalismo. Rio de Janeiro: Agir, 1960.
[6] http://scholar.google.com.br/scholar
[7] O estado da arte mais atualizado no Brasil é de SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. Estudos em Jornalismo e mídia, v.2, n.1. Florianópolis: Insular, 2005, p.95-106.
[8] SQUIRRA, S. O século dourado: a comunicação eletrônica nos EUA. São Paulo: Summus, 1995.
[9] SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. In: Estudos em Jornalismo e Mídia Vol.II Nº 1 – 2005. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/2091/1830.

[10] Pulitzer, J. The college of journalism the North American Review, 178, In: SCHUDSON, Michael -Descobrindo a notícia: uma história social dos jornais nos Estados Unidos. Tradução Denise Jardin Duarte. Petrópolis. Ed Vozes, 2010 (p. 180).

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