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O liberal Lippmann é pioneiro para os estudos de jornalismo

Posted by analisesdejornalismo em outubro 27, 2013

Por Lia Seixas

Walter Lippmann, hoje um autor clássico nos estudos de jornalismo, passou pelo socialismo, morreu liberal e falou pela primeira vez proposições repetidas por vários pesquisadores por todos esses anos, desde 22, quando publicou “Opinião pública” (livro que lemos no grupo e para o qual fizemos uma apresentação, que vai aqui sem muita formatação, mas com o que consideramos importante destacar sobre essa obra e o autor). Lippmann questionou a democracia, discutiu o socialismo em sua famosa coluna de jornal.

A tese do livro, para nós, é que a opinião pública é baseada em estereótipos. Defende que as notícias seriam um produto estandardizado. Daí, alguns autores (como Jorege Pedro Sousa) considerarem que ele antecipou a teoria da construção da realidade. O cidadão comum não teria informação de qualidade. Lippmann, por isso, é considerado um autor elitista. Curioso que ele seja tão incensado hoje por intelectuais que discordam disso.

Lippmann disse pela primeira vez afirmações acreditadas e algumas fortalecidas hoje, como: cobertura é fragmentada (episódica) e descontextualizada (p.190 de “Public Opinion” – ver referência abaixo); o material jornalístico precisa ser estilizado (linha editorial); a existência da hierarquização; a necessidade da rotina para o editor (p.191 de “Public Opinion” – ver referência abaixo ); a necessidade do assessor de imprensa; o jornal tem que fazer com que o leitor se identifique. Defendeu a necessidade de uma formação específica para o jornalismo.

Discutiu pela primeira vez:
A. a diferença entre o “mundo exterior” e  “as imagens em nossas cabeças” (imagens estereotipadas da realidade);
B. o conceito de verdade no jornalismo;
C. democracia. A democracia não garantiria “informação perfeita”;

Criou conceitos:
1. manufactured consent = o jornalismo contribui para construir consensos;
2. pseudo-ambiente:
“Para Lippmann, é evidente o papel que essas “imagens em nossas cabeças” têm na formulação de crenças preconcebidas. E aqui podemos entrar em outro conceito pioneiro do pesquisador norte-americano, o de pseudo-ambiente, apontado como o conjunto de imagens criadas indiretamente pela ação da mídia e do noticiário em nossos mapas mentais. Ou seja, uma realidade estruturada não com as informações e o conhecimento obtidos por experiências vivenciadas por nós mesmos, mas sim, uma realidade aprendida com aquilo que obtemos da mídia” (LENZI, 2009, disponível em Observatório da Imprensa).

Contexto
Em 22, já havia passado a primeira guerra mundial. O lead é de 1920. Discutia-se o nascimento do jornalismo moderno, fundamentado na publicidade. Pesquisava-se com a teoria hipodérmica. Discutia-se jornalismo como espelho da realidade. Já era forte a discussão do socialismo. A Revolução Bolchevique começa em 1917. O primeiro livro do “Capital” começou a ser lançado em 1867. Ele tinha uma compreensão pessimista da mídia da época, quando os pesquisadores são influenciados pela I Guerra.

Creio que valor-notícia só veio a ser debatido na década de 60, portanto em 22 Lippmann inaugura, mas pelo viés da política e da opinião pública. Nele estaria também, defende-se, a origem do conceito de agendamento. Kunczik cita Daniel Hartnack, que teria sido o primeiro a defender tese sobre jornalismo em 1688. Depois cita Tobias Peucer, ao tratar da publicação de jornais na Alemanha em 1690. Falava-se em tipos de eventos. Ele é considerado o primeiro autor a empregar o termo “valores informativos”. O atigo “Para pensar critérios de noticiabilidade” de Gislene Silva destaca: “Lippman: clareza, surpresa, proximidade geográfica – leitor tem que se identificar; impacto e conflito pessoal”.

Autor

De família judia abastada, ele nasceu em 23 de setembro de 1889 em Nova York. Entrou tarde na universidade (depis de 10 anos já de jornalismo). Fez Harvard. Foi editor da “New Republic and World”. Escreveu a coluna “Today and Tomorrow”, com a qual ganhou 2 prêmios Pulitzer. Saiu em 1920 (quando tinha 31 anos) da New Republic de foi para New York World. Foi assessor de republicanos e democratas. Escreveu outros livros: A preface to politics (1913), Drift and Mastery (1914; no qual rejeitou o socialismo); A teste of the news (1920); The Cold War, Liberty and the News (1920) , além de Public Opinion (1922) e The Phantom Public (1925). Nestes dois últimos, entende-se que Lippmann colocou dúvidas sobre a possibilidade de uma verdadeira democracia nas sociedades complexas. Depois da segunda guerra, ele voltou para o liberalismo. Tinha visão elitista da sociedade. Ele morreu em dezembro de 1974. Seus campos de conhecimento, então, eram o jornalismo e a política.

Referências

BLUMENTHAL, Sidney. Walter Lippmann and the American journalism today. Open Democracy, 2007. Disponível em: http://www.opendemocracy.net/article/democracy_power/america_inside/walter_lippman.

CUNHA, I.; CABRERA, A.; SOUSA,J.; Pesquisa em Mídia e Jornalismo, Homengagem a Traquina (orgs.) Covilhã: Labcom Books, 2012. Disponível em: http://www.livroslabcom.ubi.pt/book/90. (Destaque para capítulo 02 e 04)

KUNCZICK, Michael. Conceitos de jornalismo; norte e sul. São Paulo: Edusp, 2001.

LENZI, Alexandre. Lippmann, Kovach e Rosenstiel, um diálogo após décadas. Observatório da Imprensa, edição 556, 2009. Disponível em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/lippmann_kovach_e_rosenstiel_um_dialogo_apos_decadas.

LIPPMANN, Walter. Public Opinion. Nova Yirk: Dover Editions, 2004. (livro de 1922. Destaque para a parte VII, “Jornais”)

PADILHA, Sônia. Os valores-notícia no webjornalismo. Anais do 10º SBPJor, Curitiba, 2012. Disponível em: http://soac.bce.unb.br/index.php/ENPJor/XENPJOR/paper/viewFile/1689/286. (Tem um bom histórico dos estudos sobre valor-notícia)

SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. In: Estudos em Jornalismo e Mídia 
Vol.II Nº 1 – 1º Semestre de 2005. Disponível em:
https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/2091/1830. (Virou um clássico com a diferenciação entre as noções de valor-notícia e critérios de noticiabilidade)

SPARTACUS EDUCATIONAL. Walter Lippmann. Disponível em: http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/USAlippmann.htm. (Detalhe: dentro de “Political Leaders”)

SOUSA, Jorge Pedro. Pesquisa e reflexão sobre jornalismo até 1950: a institucionalização do jornalismo como campo de conhecimento e campo científico. Biblioteca On-Line de Ciências da Comunicação. Disponível em: http://bocc.ubi.pt/pag/sousa-jorge-pedro-pesquisa-e-reflexao-sobre-jornalismo-1950.pdf.

Fonte: Núcleo de Estudos em Jornalismo.

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